terça-feira, 29 de novembro de 2011

"Into the wild" - Misiones San Ignácio

Depois de dois dias em Iguazu e sem muito mais a fazer, decidi ir a San Ignácio, uma terra que faz fronteira com o Paraguai a "apenas" 5 horas e meia de autocarro.

"San Ignácio - Misiones foi fundada em 1632 pelos Jesuítas durante o período de colonização espanhola. A terra era povoada por Guaranís e, dessa missão, resultou uma sociedade bastante independente e desenvolvida. Redescoberta em 1897, o trabalho de restauração só se iniciou nos anos 40. Desde 1984 que San Ignacio Miní é um Património Mundial da UNESCO."

Para lá a viagem correu bem, dormi a maior parte do caminho. O pouco tempo em que estive acordada deu para perceber que me afastava cada vez mais da civilização. Havia pessoas a vender na berma da estrada, crianças descalças meias indígenas e pouco mais no meio da verdadeira selva.

Chegada a San Ignácio, às 4 da tarde, deixaram-me numa estação de autocarros afastada da aldeia, com dois viajantes que vim a conhecer. Logo fomos abordados por uma rapariga que publicitava um hostel e por um representante do turismo local. Estavam 40º e a terra era constituída por uma dúzia de quarteirões, estradas de terra batida, árvores e comércio de pouca dimensão. A aldeia estava completamente deserta. Soube depois que aquela era a hora da "siesta" e também era feriado nacional, o que explicava o facto de ter cruzado apenas com 3 crianças que brincavam na rua, ao atravessar a aldeia até ao hostel.

Os viajantes que desembarcaram eram um casal de namorados, arquitectos, ele francês (Eduard) e ela belga (Julie). Ficamos os três juntos, a subir a avenida de terra debaixo de 40º e com duas mochilas cada um. Eles levaram-me ao hostel pois não havia ninguém na rua. Depois foram a outro hostel pois suportamente era mais barato, mas logo regressaram ao meu e ficaram a dormir no meu quarto.

Na verdade não estava muito satisfeita com a minha escolha, não parecia ter sido a melhor opção.

Pouco tempo depois, na zona comum do hostel conheci um senhor de 80 anos. Ele tinha estado a jogar ping-pong com um miúdo pequeno e, à primeira vista, pensei que eram da mesma família. Logo me perguntou de onde eu era e apresentou-se. Estava a viajar sozinho também, durante 3 meses e depois regressaria à Bélgica. O senhor chamava-se Claude, tinha o cabelo todo branco, usava óculos de massa e tinha um sorriso de um miúdo de 8 anos. Vou falar melhor sobre ele depois.

Nesse mesmo dia cruzei-me com o Claude. Ele perguntou se eu não queria ir ver um espetáculo de luz e som nas ruínas de San Ignácio. Aceitei. Fomos jantar a um sítio bastante modesto e depois fomos às ruínas. Valeu mesmo a pena. O espetáculo é para um grupo no máximo de 50 pessoas onde existem dois guias com lanternas que vão orientando o grupo por entre as ruínas. São projectadas imagens em 3D entre as árvores, nas paredes e sempre acompanhada pela voz de um "ancião" a contar a história do povo. A noite estava muito agradável e os sons da natureza acompanhavam o espetáculo. Vi imensos pirilampos que, confesso, nunca tinha visto em parte alguma. Foi mágico.

No dia seguinte, hoje portanto, eu e o Claude tomamos o pequeno-almoço com os meus companheiros de quarto, a Julie e o Eduard. Decidimos ir visitar as ruínas juntos, pois durante a noite muitos pormenores escapam. O sítio é realmente maravilhoso e, apesar de toda a destruíção (na qual os Portugueses há uns séculos atrás têm culpa), não deixa de transparecer magia.

Foi um passeio muito bom. Pelo caminho, todos falavam francês, pelo que foi bom para treinar o ouvido e também relembrar algumas palavras. O Claude não percebe inglês, logo falava espanhol com ele. Com os namorados, eu falava espanhol ou inglês, entre eles falavam uma mistura de belga e francês (é parecido).

Eramos um grupo bastante heteogéneo, com uma diferença de idade enorme.

Bem, divertimo-nos imenso juntos. Depois da visita fomos tomar uma bebida e depois decidimos cozinhar juntos no hostel. Fomos às compras ao supermercado. O Claude ofereceu-nos as bebidas: champagne para os aperitivos e rosé para acompanhar a bela pasta. Foi um almoço improvisado mas delicioso.

No final bebemos mate (uma bebida mais forte que café e que todos na argentina bebem) e trocamos contactos. O Claude contou um pouco da sua história, apesar de não ser um homem de grandes palavras. Não tem fihos, irmãos, sobrinhos, vive sozinho, tinha uma namorada de 30 anos da qual se separou porque ela não gostava de viajar. Nem cão tem. Nem gato. Quando lhe pedi a morada, já nem se lembrava (depois lembro-se e convidou-me a ir à Bélgica no próximo verão). Afinal passa 9 meses por ano a viajar. Já conheceu todos os continentes.

Detesta viagens organizadas e por isso não quer ir ao Butão, o país com maior índice de felicidade, perto do Nepal, só porque tem de se ir numa excursão. É incrível que apesar de toda esta história, parece ser um homem realizado. Ninguém teve pena da sua "solidão", pois é o modo de vida que ele escolheu. É uma pessoa de poucas palavras e, na maiora do tempo que passei com ele, estivemos em silêncio. Mas foi o silêncio mais confortável que alguma vez já tive com alguém que conheci em tão pouco tempo. Foi indescrtível.

Quando vim embora, acompanhou-me à estação de autocarros, a 20 minutos a pé do hostel. Não falámos o caminho todo. Ficamos sentados no terminal até o autocarro chegar. Disse que no dia seguinte iria para a estação apanhar o primeiro autocarro que viesse para Iguazu.  Tirámos uma foto e despedimos como velhos amigos.

Voltando a Iguazu para apanhar o voo amanhã para Córdoba, tive uma viagem que me pôs à prova. A camioneta era velha, suja e estava cheia de baratas. A viagem demorou 5 horas e meia. Matei imensas baratas, não consegui dormi estava sempre a levantar-me para as apanhar. Queixei-me a umas raparigas que entretanto se sentaram ao meu lado e elas disseram que era normal (devem ter pensado que eu era uma princesa). Foi um 9 numa escala de desconforto de 0 a 10. Não podia sair do autocarro para apanhar outro porque simplesmente não hvia nada naquela estrada.

Mal saí do autocarro sacudi-me toda e rumei ao hostel, dois quarteirões acima. Quando cheguei ao destino fui recebida à poa do hostel por uma barata do tamanho do meu polegar.

Pensei "Welcome to South America Inês!"....












Uma semana de viagem...ainda faltam 3! :)

Beijos!

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