Aproveitando a aportunidade de estar na zona Austral do Chile, visitei Bariloche, uma cidade muito conhecida da Argentina. Esta cidade tem uma beleza natural inacreditável, com os seus vulcões, lagos, florestas e montanhas de perder de vista. Assim o vi nas fotografias que me levaram lá (e que vos aconselho a pesquisarem no google para conferirem o que estou a dizer).
Estava eu a sair de Puerto Varas em direcção a Bariloche quando, depois de dormir uma bela sesta no autocarro, acordo e olho pela janela. Não queria acreditar! O que tinha acontecido à paisagem?
Encontrava-me no meio de um nevão mas sem neve. As estradas, as casas, os animais, todos cobertos de uma camada branca/acinzentada. Perguntei a uma senhora o que se passava e ela contou-me que o vulcão chileno que tinha entrado em erupção em Junho deste ano continuava a emanar cinzas, encerrando o aeroporto de Bariloche e muitos outros, dependendo da direcção do vento.
Parando numa estação de serviço vi as pessoas a trabalhar de máscara e o vento a levantar toda a cinza do chão.
PNEUMOULTRAMICROSCÓPICOSSILICOVULCANOCONIÓTICO - a maior palavra do português, usada em tantas sessões de Terapia da Fala para trabalhar a articulação, foi a primeira palavra que me veio à cabeça, agora tomando um novo significado, mais real: a doença pulmunar provocada pela inalação das cinzas dos vulcões. Apesar do desespero, ainda me consegui rir disto...
Na fronteira Chileno-Argetina só pensava na má decisão que tinha tomado, pois nem para passear dava com aquelas condições, quanto mais apreciar a paisagem soberba que, de um momento para o outro, tinha ficado toda da mesma cor.
O mesmo pensei quando comprei uma viagem de autocarro de Bariloche para a Vila Angustura (um dos sítios mais bonitos da zona), no sentido de apanhar um barco para uma ilha com umas árvores muito raras que inspiraram os filmes da Disney, constatando à chegada que o melhor a fazer era regressar a Bariloche onde as cinzas não estavam em tamanha quantidade.
Em alternativa, nesse dia, aconselharam-me a ir mais para sul, fazer um passeio perto de um lago (Lago Guterrez). Apanhei o colectivo 50, cheio de gente e saí na última paragem.
Na mesma paragem saiu uma senhora com cerca de 50 anos e o seu filho, Jose, de 22. Como eles tinham mapa, perguntei-lhe a direcção a tomar e, como íamos na mesma direcção, decidimos ir juntos fazer o passeio. Nisto começam a aproximar-se uns insectos, tal e qual umas abelhas (o mesmo tamanho, a mesma forma e o mesmo barulho) e que me ficam a rondar. Quem me conhece sabe que não sou muito fã de abelhas e quem algum dia pôde apreciar a minha reacção às mesmas vai entender melhor.
Portanto, estes insectos, pensava eu que eram abelhas comecaram-se a aproximar às dezenas, não só de mim como das outras pessoas e por mais que as sacudissemos não iam embora. Eu comecei a entrar em pânico, larguei a mochila no meio do caminho e desatei a correr, sacudindo braços e pernas...um pouco a "apanicar". Não conformada saco do meu lenço/toalha/cachecol e começo a sacudi-las energicamente. Como éramos 3 fizemos um trabalho de grupo, o da trás sacudia os insectos do da frente e íamos trocando. Sempre que um queria tirar fotografias, os outros dois afastavam os insectos para deixar o "fotógrafo" em paz. Parece exagero, mas nunca vi coisa mais chata.

Felizmente, ao entrarmos num trilho de uma floresta lindissima, a caminho de uma cascata, encontramos um nativo que nos disse que não eram abelhas, mas sim uns insectos estranhos que somente saíram à rua como reacção as cinzas vulcânicas. Antes disso os insectos não circulavam assim como loucos. Felizmente a sua picava não é venenosa e não dói quase nada. Fiquei um pouco mais tranquila.
Á medida que prosseguiamos caminho, a paisagem era cada vez mais bonita. Inicialmente caminhamos a par de um lago de perder de vista (aqui o "Guterrez" é bonito"), com uma bela montanha do outro lado. Depois entramos numa floresta, com um trilho assinalado até às cataradas dos duendes (aqui os duendes são personagens místicas e muito associadas a mitos locais). Apesar da beleza das cataratas, decidimos seguir mais, rumo a um miradouro. De facto valeu a pena. As árvores com mais de 30 metros, os pássaros, a frescura da água, a vista para o lago, já fez valer a pena a visita a Bariloche.
No regresso atravessamos um parque de campismo que tinha uma pequena praia. Fomos molhar os pés e contemplar aquela vista fantástica. A água era completamente pura e transparente. Tenho pena de não ter fotos minhas daquele local, pois como as pilhas da máquina fotográfica já estão viciadas não me chegaram para o dia todo.
Nessa noite, fiquei num hostel bastante acolhedor. Foi interessante jantar com uma inglesa, uma suíça, uma australiana, um nova iorquino, um argentino e dois alemães. Parece daquelas anedotas (estava um português, um inglês,....)! Até agora não conheci mais nenhum português a viajar, o que me leva a crer que tive muita sorte com o timing desta viagem!
No dia seguinte, foi hora de fazer o check-out e sair. Como o autocarro de regresso era só as 13h15, ainda visitei o museu patagónico no centro de Bariloche. Com toda a calma do mundo fui para a estação de autocarros, onde me informaram que o dito estava atrasado devido a um passageiro ter sido encontrado com droga na fronteira. Esperei 3 horas pelo autocarro. A viagem foi lenta, dolorosa e desconfortável. Reclamei pelo atraso e pelo facto de, decorrente da hora a que chegavamos, já só podia ir de taxi para o aeroporto (gastando imenso dinheiro, pois é nos confins). Encolheram os ombros e disseram "paciência".
Juro que vou daqui sem compreender a passividade deste povo: não questionam, não reclamam (não existe livro de reclamações em parte alguma), e como diz um Português que vive cá, o chileno tenta sempre enganar o próximo. Para qualquer coisa é preciso dar gorjeta, para tirarem a mala do autocarro, para ir à casa de banho (mesmo as muito más), só falta cobrarem o ar chileno (e mais caro se for para turistas!) - Não paga, não respira!
Enfim, chegando à estação de Puerto Montt, apanhei um taxi para o aeroporto. A ideia era ficar lá a dormir para apanhar o voo das 6 da manhã para Santiago do Chile.
Chegada ao aeroporto, estava praticamente às escuras, sem ninguém para além do segurança à entrada. O senhor disse-me que podia dormir no piso de cima, que era mais "quentinho". Chegada ao aeroporto "fantasma" tirei as botinhas, arrumei-as debaixo de um banco, acendi as luzes da casa de banho, lavei os dentes e voltei para a minha cama feita de mochilas, casacos e toalhas de banho a fazer de cobertor.
Já aninhada e não muito confortável, nem 5 minutos depois comecam a fazer obras no aeroporto. Nunca o som de um berbequim foi tão amaldiçoado. As obras duraram 2 horas, por isso consegui dormitar entre as 2 e as 5 da manhã, hora a que fiz o check-in.
É nestas alturas que se dá valor à nossa cama :)
Agora estou em Santiago, a disfrutar de um verão quente e seco, de uma cidade cheia de vida e de pessoas de todo po mundo. Conheci um Português, o Rui Sá, que apareceu no programa "Portugueses pelo Mundo" (podem pesquisar no You Tube o episodio 3 sobre Santiago do Chile), e a sua namorada. Fomos jantar juntos e hoje fui ao mercado com a Rocío.
Amanhã parto para Buenos Aires, onde tudo começou.
"Oh, let's go back to the start..."
Beijos :)