domingo, 4 de dezembro de 2011

Cordoba: viver a Argentina

Depois da passagem pela mesopotâmia argentina, rumei para Cordoba, a região a noroeste dos Andes. Cordoba, a segunda capital da Argentina, cheia de histórias, possui a universidade mais antiga do país, fundada pelos jesuítas.

Mal saí do avião notei uma diferença brutal de temperatura. O calor tropical tinha ficado para trás. Quando saí do aeroporto dividi o taxi com duas senhoras simpáticas que me deixaram no centro da cidade. Depois apanhei um novo taxi para a morada da rapariga que conheci através do site "couchsurfing".

A Paula é uma rapariga de 25 anos, desenhadora de moda, que vive sozinha em Cordoba. Natural de Cruz de Eje (uma terra a 2h de carro de Cordoba), é uma viajante nata. Tinha acabado de chegar de uma viagem de 7 meses. Foi à Europa, Marrocos e Índia. Na época "alta" faz bijuteria para vender perto das zonas turísticas e ganhar dinheiro para a próxima viagem. Foi a vender coisas feitas por ela que ganhou dinheiro para viajar à India.

Bem, a Paula recebeu-me de esfregona na mão e com um sorriso na cara "Inés? Entra...!"

Deixou-me muito à vontade, fez o almoço para as duas, levou-me a um posto de turismo e orientou-me na cidade. Como trabalha das 15h às 22h, fiquei por minha conta e com as chaves de casa para regressar quando quisesse.

Almoço feito pela Paula
Nesse dia, portanto 30 de Novembro, visitei o centro da cidade. Vou confessar que não é a cidade mais bonita onde já estive, mas é o mais parecido com o que se vive em Portugal. Os prédios não são imponentes, as ruas não são gigantes, tem muitos estudantes e um ambiente mais descontraído. Visitei as igrejas antigas, um museu, as praças, as ruas mais movimentadas. Com algum cansaço, escolhi um café perto da universidade para ficar a ler e a escrever um pouco. No regresso a casa, comprei coisas para cozinhar para mim e para a Paula. Nesse mesmo dia, depois de conhecermos um amigo dela e irmos conhecer um bar chamado Johnny B.Good, estivemos na conversa até ás tantas da manhã.

Cordoba
No dia seguinte, dia 1 de Dezembro, fomos fazer yoga (que ela pronuncia jóga). Foi muito bom, apesar de a nossa companheira de classe ser uma senhora de 65 anos e por isso não ter sido muito cansativo.

De regresso a casa, tomamos um pequeno almoço de princesas e, depois do banquete, ela foi trabalhar e eu rumei a Alto de Gracia, uma cidade a 1h de bus, onde cresceu o Che Guevara. Fui visitar a casa onde ele passou a infância e onde estão depositados todos os seus pertences. Foi mesmo muito bom. Vi "ao vivo e a cores" a famosa motocicleta com que ele percorreu toda a américa do sul e américa central e também os seus diários. Tem coisas impressionantes. Depois da visita e ainda inspirada pelo Che, fui passear perto de um lago que existe nessa cidade e, um tempo depois, regressei a Cordoba.

Os diários de Che
A motocicleta de Che

Nessa noite conheci dois amigos de infância da Paula, a Maria de los Angeles e o Gustavo. São todos de Cruz de Eje, a terra para lá das serras (o equivalente a Trás-os-Montes). Fomos a uma esplanada e conversamos animadamente até ás 2 da manhã. Estes namorados são advogados e trabalham perto do tribunal. Convidaram-nos para irmos no dia seguinte conhecer o tribunal por dentro, visto ser um monumento histórico da cidade.

Tribunal de Cordoba

No dia seguinte, dia 2 de Dezembro, acordamos super tarde mas ainda arranjamos tempo para ir visitar os amigos ao escritório. De seguida visitamos o tribunal e, no momento da despedida, a Angeles e o Gus perguntaram se eu não gostava de ir conhecer a terra deles nessa tarde/noite. Eu achei uma belíssima ideia.

Angeles e Gus
Imaginem só: a Maria tem uma casa enorme, com piscina e os pais são donos de um cinema. Sim, de um cinema à antiga!! Nessa noite ia estrear um filme de uma produtora local, um documentário sobre a história da cidade de Cruz de Eje. A sério? Claro que aceitei ir!

A Paula tinha de trabalhar até ás 22h e, por isso, rumei para a serra pelas 16h30.

Pelo caminho levaram-me a visitar imensas terras: Carlos Paz com um lago belíssimo, Cousquin - a cidade por excelência do folclore Argentino, La Falda - uma terra na encosta da serra, Lo Cumbre - uma cidade no cume da serra onde vivem imensos ingleses e por fim, a Capilla del Monte - cidade mística de onde se diz ser visitada por ovnis e outras criaturas do além (nota: no dia 11/11/11, 10.000 pessoas juntaram-se nessa cidade para festejar o fim do mundo, tipo um reveillon). Também me introduziram à música argentina, mostrando-me todos os tipos de música e os diversos artistas da região. Também lhes traduzi algumas músicas que eles ouviam em brasileiro (como podem imaginar o conteúdo não é muito interessante).

Chegados a Cruz de Eje, explicaram-me que a cidade teve origem com a criação da linha ferroviária e por isso é invulgarmente comprida e estreita para acompanhar a linha do comboio. No filme passado nessa noite tive oportunidade de saber a história toda da cidade (tirando os momentos em que passei pelas brasas).

Com a história do cinema, tive oportunidade de conhecer o backstage da cena. Fui à sala de projecção, onde havia aqueles projectores à antiga, tal e qual o filme "Cinema Paraíso". Durante o filme, não paguei bilhete, nem as pipocas, nem a coca-cola! Nesse mesmo dia e desfeita a festa da grande estreia, fomos a um café comer umas tapas. A conversa com o Gustavo e a Maria foi muito boa. Ambos estudaram Português na universidade, numa cadeira opcional. Perguntaram-me imensas coisas sobre Portugal, sobre a língua, a música, a literatura. Também aprendi muitas coisas sobre a Argentina, as coisas que não vêm nos livros.

Cinema Cruz Del Eje

No dia seguinte, dia 3 de Dezembro, de manhã fomos ver a estação de comboios que agora está abandonada. Tem os comboios de antigamente, parados há décadas. Um sitio que respira história, dado que foi através da ferrovia que a cidade se fundou e, depois, foi encerrada por motivos administrativos e descaracterizou a cidade.

Durante o percurso paramos para visitar o úncio sítio da América do Sul onde ainda se produzem jornais de forma artesanal. É uma loja de esquina, num edifício muito velho. Lá dentro está um senhor de cabelos brancos, com os braços todos sujos da tinta, rodeado de folhas amareladas gigantes, centenas de arquivos amontoados e diversas máquinas dignas de museu (muitas delas vi no museu da imprensa no porto).

Mostrou-nos tudo. Os diversos tipos de letras, o funcionamento das máquinas, o corte do papel, o jornal mais antigo que tinha, de 1920 e até tive direito a que o senhor escrevesse "portugal" de forma artesanal.




O sítio é mágico e os olhos do senhor até brilhavam pois não é todos os dias que os "jovens" se interessam por aquele ofício. A sua única companhia são dois cães tão velhos como ele e, um deles, manco de uma pata. Tirei imensas fotos e no final tiramos uma com o senhor à porta da loja, com a promessa que íamos divulgar aquela visita por Portugal.

Depois desta inesperada visita, fomos buscar a Paula, conhecer o pai do Gustavo e almocar em casa da Maria (Gordi, como lhe chamam todos). Os pais da Maria são fantásticos e receberam-me de braços abertos. A mãe, Mónica, é a verdadeira personagem. O paí é meio místico, com olhos azuis muito grandes, recomendou-me dois livros para ler: "Ligero de equipaje" de Carlos G. Vallés e a "Autoliberación interior" de Anthony de Mello. No fim deixo-vos um excerto que tirei deste último livro.

Depois de almoço fui conhecer um dique enorme, que até há pouco tempo era o maior da Argentina e, de seguida, fui a um sítio maravilhoso - San Marcos Sierra.

San Marcos é uma cidade perdida no mapa. É uma espécie de sítio alternativo, povoado só por hippies e yogis. É o sítio mais pacato do mundo, as pessoas andam na rua com os filhos às costas, só se vende artesanato e comida caseira, mel, queijo, doces. É o sitio onde mais de faz yoga e se contacta com a natureza. De seguida fomos a uma espécie de rio, para tomarmos banho, a 9 kilómetros de terra batida de San Marcos. Ao chegar nem queria acreditar. Um espaço verde enorme, com vacas a pastar e pessoas pelo meio a banhar-se no rio, tudo em comunidade. Para vencer o medo lá tirei uma foto ao lado de uma vaca que estava a alimentar o seu bezerro!

Atravessamos a pé o rio, através de uma parte mais alta e fomos para o outro lado. A água era limpissima, relativamente quente e cheio de libelinhas e pássaros. Ficámos a tarde toda no ócio, a disfrutar do paraíso perdido. No final da tarde fomos encher a pança (é "barriga" em argentino) de doces para San Marcos e aproveitamos para visitar uma feira artesanal. Aí conheci a Juanita, uma bebé de 1 ano e 5 meses que se ria muito e me trincou com os seus 4 dentes à primeira oportunidade. A seguir tentou fazer a invertida sobre a cabeça em plena estrada de terra batida (imitação de modelos). A mãe ria-se descontraída!









A voltar para Cordoba, passamos pelas montanhas (sierras chicas e sierra larga), que com o anoitecer ficaram violeta. Um cenário muito bonito.

Como nos perdemos um pouco em San Marcos, chegamos tarde a Cordoba. Felizmente já tinha deixado a mala pronta e foi só tomar banho. Também dei conta que perdi o cabo da máquina fotográfica (aliás, tenho perdido coisas pelo caminho - champô, amaciador, detergentes, roupa interior, agora o cabo...).

Fomos a abrir para a estação de autocarros pois tinha o bilhete para as 22h30 para Mendoza. Como não podia deixar de ser, enganamo-nos no terminal e tivemos de ir a correr, a atravessar a estação toda, subir 3 pisos para chegar à parte velha. Apanhei o bus por um triz, a primeira grande viagem por terra (8 horas de autocarro).

Despedi-me com um abraço forte daqueles meus amigos de "sofá".

Dormi pouco durante a viagem e aqui estou, na última paragem na Argentina, antes de rumar ao Chile.

Não tenho fotos para postar por agora, mas vou tentar arranjar uma solução e postar mal possa. As imagens desta estadia valem mesmo a pena. Para já, deixo-vos a imaginar...

Excerto da "Autoliberación interior":

"Tienes que vivir libremente el ahora, separado de los recuerdos, que están muertos; sólo está vivo el presente y lo tú vas descubrindo en él real" (Anthony de Mello)

Beijo enorme a todos os que se têm interessado.
Beijo enorme a todos os que me têm acompanhado.
Beijo enorme a todos os que me têm dado força.

Um beijo especial a M.

4 comentários:

  1. Epá, simplesmente lindo ler isto!

    Que inveja me dás Inês!! :)

    Adorei o texto e agora é esperar para ver as fotos do que tão bem escreveste.

    Have fun!!

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  2. Perder coisas pelo caminho é uma forma engraçada de ir gerindo o peso e a "tralha" a mais, ehehe.

    Beijinho grande de continuação de boa viagem!

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  3. Olá Inês,

    Obrigado por nos levares a viajar contigo.
    Quem sabe se estas a perder algumas coisas, para ganhares espaço para outras...

    Tenho a certeza que virás com a mochila muito mais carregada do que a que levaste.

    Beijinhos e boa viagem

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  4. A moto do CHE! :D O resto é simplesmente....

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